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domingo, 2 de fevereiro de 2014

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"Ris de mim, mas eu de ti Não sei rir nem é preciso. Quem tem juízo não ri Dos que não têm juízo." António Aleixo

sábado, 6 de abril de 2013

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.


Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.



E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,



Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;



Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.



Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida…



Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?



Ò príncipes, meus irmãos,

Arre estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?



Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?



Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos



Cansa Sentir Quando se Pensa

No ar da noite a madrugar

Há uma solidão imensa

Que tem por corpo o frio do ar.



Neste momento insone e triste

Em que não sei quem hei de ser,

Pesa-me o informe real que existe

Na noite antes de amanhecer.



Tudo isto me parece tudo.

E é uma noite a ter um fim

Um negro astral silêncio surdo

E não poder viver assim.



(Tudo isto me parece tudo.

Mas noite, frio, negror sem fim,

Mundo mudo, silêncio mudo -

Ah, nada é isto, nada é assim!)



Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Salmo

A vida


é o bago de uva

macerado

nos lugares do mundo

e aqui se diz

para proveito dos que vivem

que a dor

é vã

e o vinho

breve.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"A MASCARA"


"De todas as mascaras,

De todas as faces,

De todos nós.

Ocultos dos olhos alheios.

Ocultos de nós mesmos.

Pensamentos!

Desejos!

Culpa!

Dor!

De tudo o que não queremos ser,

Do ser que não queremos ver,

Do que somos e não queremos crer,

Do que nos envergonha ter.

E o que somos nós?

Do que nos escondemos?

Por quê?

De quem?

Dos outros?

De nós mesmos?

De todas mascaras,

De todas as faces,

De todos nós.



Percebemos-nos assim seguros?

Invisíveis?

Intocáveis?

Por trás de todas as mascaras,

Ocultas as verdadeiras faces.

Tornamos-nos o que não somos,

Tornamos-nos a mascara...

...A fantasia!

...A mentira!

...A pessoa que gostaríamos de ser!

...O orgulho que queríamos ter!

E a verdade?

Então, quem de fato somos?



O tempo passa!

De todas as mascaras,

De todas as faces,

De todos nós.

A fantasia toma conta do real!

O que era mascara torna-se a face!

O ser que há ocultado na mascara,

No vento do tempo desvanece,

E face que brincava oculta na mascara se perde.

E nos perdemos no nosso engano,

E nos esquecemos de quem somos!

Tornamos-nos a personagem esculpida,

De todas as mascaras,

De todas as faces,

De todos nós."

Luis Falcão